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Esperança ou decepção em Copenhague?
À velha e sincera esperança por um mundo melhor se
contrapõe a desconfiança de que os países não superarão
suas diferenças e a defesa de seus próprios interesses.
A opinião da sociedade, nestes casos, muitas vezes é o
que menos importa.
A expectativa mundial sobre a 15º Conferência das Partes (COP15)
da Convenção Quadro da ONU sobre Mudança Climática que
começou nessa segunda-feira (7) em Copenhague tem sido um
misto de esperança e decepção pré-anunciada. Por um lado, a
velha e sincera esperança por um mundo melhor é depositada
sobre um possível acordo duradouro e efetivo que reduza as
emissões globais de gases que aquecem o planeta, brindando
as próximas gerações com um pouco de responsabilidade e
respeito. Por outro, a não menos velha desconfiança de que,
por mais que expressem, os países não superarão suas
diferenças e a defesa de seus próprios interesses, sejam
estes nacionais ou políticos. A opinião da sociedade, nestes
casos, muitas vezes é o que menos importa.
Mas, então, o que esperar de Copenhague, além do já não tão
frio inverno nórdico? Particularmente, acredito na
esperança. Na responsabilidade e respeito com aqueles que
nos sucederão. Digo isto por alguns motivos básicos, em
relação aos quais o Brasil e a sociedade brasileira têm um
papel importante. Primeiro, o sentido de urgência hoje é
muito maior do que aquele no passado e que permeou a
negociação do Protocolo de Quioto. As evidências dos
impactos climáticos, especialmente sobre as economias dos
países são muito mais fortes agora.
Em 2006, Nicholas Stern já anunciava uma potencial perda de
muitos trilhões de dólares na economia mundial se ficássemos
de braços cruzados sobre o assunto. Estudo recente estimou
que o Brasil perderá 2 trilhões de dólares até 2050 com os
impactos econômicos da mudança climática sobre a
agricultura, florestas e energia se seguirmos com a mesma
trajetória de desenvolvimento carbono-intensiva e
demandadora de desmatamento. Se servir de consolo, o mundo
gastou vários trilhões para conter a recente crise
financeira, mostrando que se quisermos combater a mudança do
clima dinheiro pode não ser um problema intransponível.
Fico mais crente na esperança em Copenhague ao ver os
recentes posicionamentos dos países sobre os esforços de
redução de emissões e o Brasil teve um papel importante
neste caso. O país sempre encarou com reservas a questão de
metas de redução de emissões para países em desenvolvimento,
mas foi capaz de dar um salto e estabelecer uma meta para o
desmatamento (80% de redução abaixo de uma média histórica –
19 500 km2 - até 2020), e, em seguida, uma meta nacional
(aprox. 35-40% de redução sobre as emissões projetadas para
2020; em outras palavras, entre 15-17% abaixo das emissões
de 2005).
Mesmo que voluntária e ainda insuficiente (poderíamos fazer
muito mais), a meta brasileira tem um potencial enorme de
mudar o curso das negociações internacionais em Copenhague.
Pela primeira vez um país em desenvolvimento e grande
emissor assume um discurso que poderá derrubar o principal
argumento dos países ricos para não fazerem mais do que já
estão fazendo: que os países em desenvolvimento não querem
assumir compromissos mais sérios de redução de emissões. Nos
últimos anos, o Brasil já vinha dando sinais de mudança em
sua posição sobre como tratar as emissões de carbono
oriundas do desmatamento. O lançamento do Fundo Amazônia,
que teve apoio inicial do governo Norueguês, é uma amostra
desta mudança. Coincidência ou não, a reversão de posição
conjunta da anunciada intenção americana e chinesa de
expressar em Copenhague somente pretensões políticas de
redução pode ter sido um resultado do constrangimento
provocado por iniciativas como as do Brasil que, sem ser
obrigatório, assumiu metas voluntárias.
Ambos os países acabaram de anunciar suas metas. Tímidas
ainda, mas anunciaram algo quantitativo. É também
interessante notar a timidez e a cautela com que os governos
apresentam quando o assunto são as metas de redução de
emissões. O medo de que reduzir emissões levará a uma
redução de crescimento econômico é evidente. Não foi
diferente no Brasil. A discussão sobre as metas brasileiras
sobre o quanto o país poderia reduzir de emissões mostrou o
receio do governo de que as metas anunciadas prejudicariam o
crescimento do PIB.
Aparentemente, a falsa ideia de que não será possível
crescer economicamente no futuro a não ser através do atual
modelo carbono (fóssil) intensivo ainda é arraigada nos
governantes. Assume-se que, para crescer, muito óleo terá
que ser ainda queimado. Desconsidera-se totalmente o fato de
que um crescimento econômico futuro vigoroso num mundo
aquecido, se dará em países que tomarem as decisões certas
hoje: conservação de florestas (grandes armazéns de carbono
e biodiversidade), desenvolvimento tecnológico de energias
limpas e renováveis, uma indústria e agricultura
sustentáveis e ambientalmente amigáveis e um destino mais
nobre ao petróleo. Esquecem-se ainda que decisões em favor
da conservação das florestas brasileiras, da redução do
desmatamento, combinado com a redução de emissões de outros
setores (transporte e energia) representa um tipo de
poupança ou investimento de longo prazo.
Aquilo que parece ter um custo econômico elevado hoje
representa prevenção de grandes prejuízos econômicos no
futuro, advindos da mudança do clima. Basta dizer que a
conservação da Amazônia, por exemplo, representará na
prevenção de bilhões de dólares em prejuízos para o Brasil e
para o mundo como um todo. O que quero dizer é que parte
significativa do crescimento futuro do PIB do Brasil poderá
ser resultante da uma economia de baixo carbono que
decidirmos implementar hoje. Em Copenhague estarão sendo
debatidos os mecanismos de Redução de Emissões de
Desmatamento e Degradação florestal (o tal REDD), do qual o
Brasil poderá se beneficiar economicamente. Com metas e
aproveitando bem o que o REDD poderá oferecer em termos de
compensação pelos esforços de redução do desmatamento, o
Brasil poderá entrar na nova década na vanguarda da economia
de baixo carbono. Só depende de nós brasileiros.
Fonte: Revista Época |
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